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'Nem percebi que estava sofrendo racismo': advogada relata constrangimento após ser perseguida no Atakarejo

Gabriela Sena registrou queixa na Decrin após o ocorrido

Por Kaylane Matos
Às

Atualizado
'Nem percebi que estava sofrendo racismo': advogada relata constrangimento após ser perseguida no Atakarejo

Foto: Farol da Bahia

Impedida de sair do mercado, perseguida por seguranças e envergonhada diante de diversas pessoas, a advogada Gabriela Sena detalha os momentos de constrangimento e preconceito sofridos na unidade do Atacadão Atakarejo da Boca do Rio, em Salvador.

Em entrevista ao Farol da Bahia, Gabriela contou com detalhes os momentos de ansiedade enquanto realizava o que seria mais uma tarefa normal na rotina: as compras do mês. A vítima relatou que, após ser seguida pelos corredores, foi impedida de sair do local por um fiscal de prevenção e um segurança armado, que arrancaram as compras dela do carrinho e atiraram as sacolas no chão sob suspeita infundada de furto. 

Ela relata que não teve dimensão do que estava acontecendo, ficou muito abalada, desorientada e que inicialmente nem percebeu que estava sendo vítima de um crime

"Eu estava tremendo muito, só queria que resolvesse, mas eu não sabia de que forma teria que ser resolvida. Eu estava tão desnorteada que eu nem percebi que eu estava sofrendo racismo.", declarou.

Segundo Gabriela, ela só entendeu que se tratava de um caso de racismo após a chegada do advogado, Dr. Bruno Moura, que a ajudou a compreender a dimensão do ato e orientou que procurasse a Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (DECRIM). 

O advogado esclareceu que a rede de supermercado foi processada na esfera cível, enquanto os agentes foram na esfera criminal. 

Ao Farol da Bahia, a rede de supermercado Atacadão Atakarejo informou ter procurado a cliente, em nome do CEO Teobaldo Costa, mas que apenas responderia por meio dos advogados.  

Repercussão 

No relato, a advogada levantou que foi julgada a partir de um estereótipo visual, que por ser uma mulher preta, vestida de roupas casuais, os funcionários presumiram que ela não teria capacidade financeira para arcar com as compras. Ela enfatiza que esse tipo de abordagem reflete um padrão recorrente vivido por pessoas negras.

"Sempre são pessoas com as mesmas características que as minhas", declarou.

O relato teve grande repercussão entre internautas e personalidades que se pronunciaram nas redes sociais. A professora Bárbara Carine prestou solidariedade a Gabriela e classificou a abordagem como um caso absurdo de racismo. Doutora pela Universidade Federal da Bahia, Bárbara destacou as nuances do racismo que desumaniza sem seletividade. 

"Uma advogada viveu essa experiência aí, porque o racismo, ele não vem seletividade com negros, não. Ele te expõe nesse lugar inumano, desenvolvido outrora pelo racismo científico, que coloca a gente nessa condição de propensão ao crime constantemente.", posicionou Bárbara.

Nos comentários, internautas cobram posicionamento da rede e repudiaram a ação. 

Histórico do mercado

A rede de supermercado Atacadão Atakarejo assinou em 2023 um acordo judicial com a Defensoria Pública da União de R$20 milhões por dano moral coletivo pela tortura e morte de homens negros em abril de 2021.

Bruno Barros, de 29 anos, e Yan Barros, de 19, foram flagrados furtando carne no dia 26 de abril de 2021, em uma unidade da rede em Salvador. Os dois foram rendidos por seguranças e entregues a integrantes de uma facção criminosa, sendo torturados até a morte. 

 O acordo prevê que o dinheiro será destinado a iniciativas de combate ao racismo estrutural, por meio do Funtrad (Fundo de Promoção do Trabalho Decente). 

Além da indenização em dinheiro, o termo possui outras 41 cláusulas para a rede que inclui: a não proibição a filmagens dentro do supermercado, ampliação do quadro de funcionários negros e a não contratação de empresa de segurança que tenha "policiais civis ou militares da ativa ou que tenham sido expulsos das instituições".

Confira o vídeo abaixo

 

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