Quase 60% dos brasileiros têm medo de sofrer agressão por escolha política

Dado consta em pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública encomendada ao Datafolha

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Quase 60% dos brasileiros têm medo de sofrer agressão por escolha política

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Ao entrar num ônibus, me deparei com um senhor falando que estava ‘doido’ pra dar um tiro na cabeça de um petista.” O relato, feito ao Farol da Bahia pela pedagoga Dora Coutinho, de 61 anos, evidencia o clima de medo que paira no Brasil às vésperas das próximas eleições presidenciais, mais uma vez polarizadas.

A percepção da idosa é mais do que uma experiência objetiva imediata, mostra uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública encomendada ao Instituto Datafolha. Intitulado o “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, o estudo traz, entre outros dados, que quase 60% dos brasileiros têm medo de sofrer agressão física por causa de suas escolhas políticas ou partidárias. Além disso, nos últimos 12 meses, 2,2% da população, ou 3,6 milhões de pessoas, chegaram a ser agredidos por esse motivo.

O medo tem acuado até mesmo quem está acostumado a manifestar opinião política em público, como é o caso da própria Dora. Filiada ao PT, a baiana mora há 12 anos em Brasília, centro político do país e uma das 16 capitais onde Jair Bolsonaro (PL) venceu em 2022.

"Eu acho, às vezes, até que sou muito ousada”, brinca a pedagoga, que já foi chamada à atenção pelo filho, por se expressar abertamente. “Agora, quando eu vejo pessoas com um comportamento meio doentio, querendo dar tiro, pela minha segurança, eu fico quieta”, conta.

Ela, ainda, menciona outra informação relevante constatada pelo levantamento: o medo de ser vítima desse tipo de agressão é mais frequente entre mulheres (65%) do que entre homens (53%). “O principal alvo nessas situações sempre são mulheres, principalmente, quando estão desacompanhadas”, diz.

O sentimento é compartilhado pela atendente Camila Cerqueira*, 46 anos. Moradora de Salvador, ela relata que tem a pretensão de comprar uma camisa em apoio à reeleição do presidente Lula (PT). “Quero comprar a camisa pra circular em lugares em que me sinto segura pra expor meu posicionamento político, o que não é o caso da rua, considerando que a maioria dos bolsonaristas são extremamente agressivos”, afirma.

Além do medo das ruas, outro sentimento comum a Camila e a outras pessoas ouvidas pela reportagem diz respeito à exposição no ambiente de trabalho. “Aqui no trabalho, sabendo que a chefia é da extrema direita, eu me sinto um pouco acuada”, comenta a atendente. “Infelizmente, estamos vivendo em uma democracia que [a opinião] não pode ser explícita”, lamenta.

A tensão provocada pela polarização política também coloca em risco quem, muitas vezes, prefere não emitir opiniões que indiquem preferência por esse ou aquele candidato. Dono de uma barbearia na capital baiana, o barbeiro Marcos Messias dos Santos, 31, esteve perto de presenciar uma cena de agressão no estabelecimento.

“Estava atendendo um cliente que usava camisa vermelha e boné do PT, e coincidiu de chegar outro cliente, um idoso de uns 80 anos que é bolsonarista e dizia que usaria um drone [equipado com arma] pra matar Lula”, relembra Messias. “Só que o rapaz estava com a capa [de corte] e fingiu concordar com o idoso, que não viu a camisa e o boné, que estava na mão dele [do rapaz]”, conta, aliviado.

Apesar do prenome, Messias adota uma postura mais moderada: ele segue a máxima de que “política, futebol e religião não se discutem”, ainda que nem sempre — pelo menos, em sua barbearia —, o cliente tenha razão. “Eu converso de tudo até determinado ponto”, admite o profissional. “Se eles chegassem a discutir, eu diria que cada um tem sua opinião, mas só vale a pena conversar se for numa boa”, pondera.

Polarização é anterior a Lula x Bolsonaro, diz especialista

Embora a polarização política no Brasil tenha se intensificado a partir de 2022, quando Lula enfrentou e venceu Bolsonaro na disputa presidencial mais acirrada desde a redemocratização do país, o cientista político Cláudio André de Souza ressalva que o fenômeno é anterior ao duelo nas urnas protagonizado pela dupla.

Segundo o professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), a polarização também se dá, por exemplo, nos contextos municipais. “Quando a gente tem padrões de competição duais, sobretudo, nas cidades com menos de 200 mil eleitores, que não têm segundo turno nas eleições municipais e passam a ter somente duas ou três candidaturas, há uma polarização estrutural que envolve desde a escolha de onde a pessoa vai comprar um pão,  em que lojas vai consumir e que ambientes vai frequentar”, explica Cláudio André.

“O que aconteceu foi que, a partir do cenário de 2022, a gente teve efetivamente uma situação muito objetiva que nos levou ali a ter uma perspectiva de violência política mais elevada, o que gerou um medo e um sentimento mais perceptível por parte das pessoas”, acrescenta o especialista.

Para Cláudio André, o fato de a maioria dos relatos trazidos pela reportagem ser de pessoas identificadas com o campo da esquerda evidencia um ‘constrangimento mais ampliado’ por parte desse grupo. “A gente tem uma sociedade mais inclinada à direita, mais liberal e conservadora”, analisa.

O cientista político lembra que, entre 2014 e 2022, houve um forte avanço da direita e da extrema direita. “Assim, acabou por pairar no imaginário social uma força muito grande de um grupo que passou ali a exercer a hegemonia na política brasileira”, afirma. “Bolsonaro, apesar do que aconteceu na pandemia de covid-19, ter chegado à eleição em 2022 com 49% dos votos, é algo muito forte”, destaca.

Na visão de Cláudio André, o cenário a partir das próximas eleições ainda é incerto. “Apesar de não haver base probatória, eu entendo que a gente vai vivenciar uma eleição que talvez se assemelhe praticamente ao que foi a de 1989, com novos arranjos e com um cenário de mais grupos se reorganizando a médio prazo a partir das eleições presidenciais”, conclui.

Nova pesquisa aponta empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro

Uma pesquisa divulgada pela Futura/Apex na última segunda-feira (11) aponta empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa em primeiro turno pela Presidência da República.

Em um primeiro cenário, Lula aparece com 38,3% das intenções de voto, enquanto Flávio figura com 36,1%. Já o pré-candidato a governador do Ceará Ciro Gomes (PSDB) e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) têm 4,4%, cada.

*Nome fictício adotado para preservar a identidade da entrevistada

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