Por que a Copa do Mundo mexe tanto com a nossa cabeça? Especialista explica!

Psicanálise explica como futebol desperta paixões, angústias, identidade nacional e transforma vitórias e derrotas em experiências emocionais coletivas

Por Michel Telles
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Por que a Copa do Mundo mexe tanto com a nossa cabeça? Especialista explica!

Foto: Divulg...

A cada quatro anos, a cada edição do maior torneio do futebol mundial, uma cena se repete em diferentes países: milhões de pessoas interrompem suas rotinas, reorganizam agendas, mudam o humor e passam a viver intensamente o destino de uma seleção nacional. Há quem chore, quem comemore nas ruas, quem perca o sono e até quem evite falar sobre futebol após uma derrota traumática. Mas por que um jogo de pouco mais de 90 minutos  é capaz de provocar reações emocionais tão intensas?

Para a Psicanálise, a resposta vai muito além das quatro linhas do campo. "A Copa do Mundo mobiliza sentimentos profundos relacionados à identidade, pertencimento, rivalidade, desejo, frustração e até à própria construção da vida em sociedade. O futebol funciona como um grande palco onde emoções individuais e coletivas encontram uma forma de expressão socialmente aceita", explica a psicanalista Sílvia A. Santana, diretora do Centro de Especialização e Acompanhamento Psicológico & Psiquiátrico (CEAPP). De acordo com ela, durante uma Copa, não estamos apenas assistindo a apenas uma partida, mas projetando expectativas, medos, sonhos e identificações que fazem parte da nossa história pessoal e cultural.

Segundo a psicanalista, poucos eventos conseguem produzir um sentimento de pertencimento tão poderoso quanto uma Copa do Mundo, pois, durante algumas semanas, diferenças políticas, sociais, econômicas e regionais "parecem" perder espaço para um objetivo comum, pois sob a ótica psicanalítica, esse fenômeno ocorre porque a seleção nacional se transforma em um símbolo coletivo. O torcedor passa a experimentar a vitória como uma conquista pessoal e a derrota como uma perda íntima. Não é por acaso que frases como "ganhamos" ou "perdemos" são tão frequentes, mesmo entre pessoas que nunca tiveram qualquer contato direto com os jogadores. "Existe um mecanismo de identificação muito forte. O sujeito se reconhece naquele grupo e passa a compartilhar emocionalmente seus resultados. A vitória gera uma sensação de potência coletiva; a derrota pode despertar sentimentos de fracasso, impotência e frustração", observa Sílvia Santana.

Outro aspecto fascinante da Copa do Mundo é a forma como confrontos esportivos carregam histórias muito maiores do que o próprio jogo. Quando seleções com rivalidades históricas se enfrentam, entram em campo não apenas os atletas, mas décadas de memórias, disputas simbólicas e narrativas construídas por diferentes gerações. Brasil e Argentina, Alemanha e Inglaterra, França e Itália, entre tantas outras rivalidades, mobilizam elementos emocionais que ultrapassam o universo esportivo. Na esfera da Psicanálise, essas disputas funcionam como representações simbólicas de conflitos humanos universais: o desejo de superação, a competição, o reconhecimento e a busca por prestígio. "Os grandes clássicos internacionais despertam emoções intensas porque ativam memórias coletivas. Muitas vezes, o torcedor revive histórias que sequer testemunhou, mas que foram transmitidas culturalmente e incorporadas ao imaginário social", explica a especialista.

O sofrimento do torcedor também é real

Que atire a primeira pedra quem nunca sentiu o coração acelerar antes de uma decisão ou passou horas remoendo uma eliminação inesperada. Embora pareça exagero para quem não acompanha futebol, a Ciência já demonstrou que eventos esportivos podem provocar alterações reais no organismo, incluindo aumento da frequência cardíaca, elevação dos níveis de estresse e mudanças de humor.

A Psicanálise entende esse sofrimento como consequência direta do investimento emocional feito pelo torcedor, pois quanto maior a expectativa, maior o risco da frustração. "O sofrimento do torcedor não é uma encenação. Ele decorre de um vínculo afetivo genuíno. O futebol cria uma narrativa de esperança, e quando essa narrativa é interrompida, a perda pode ser vivida como uma pequena experiência de luto", afirma Sílvia Santana. Se para o torcedor a Copa desperta emoções intensas, para atletas e treinadores a experiência pode ser ainda mais complexa. Isso porque a exposição global, a cobrança da imprensa, as expectativas de milhões de pessoas e o peso da história esportiva do país criam uma carga psicológica gigantesca e uma decisão tomada em segundos pode transformar um jogador em herói nacional ou alvo de críticas implacáveis. Nesses momentos, a Psicanálise observa que muitos atletas enfrentam o conflito entre o desejo de corresponder às expectativas externas e a necessidade de preservar sua própria identidade. "A Copa amplifica algo que já existe em outras áreas da vida: o medo do fracasso e o desejo de reconhecimento. O problema é que, no futebol, tudo acontece diante de milhões de espectadores e em tempo real", explica a diretora do CEAPP. A Copa do Mundo nos emociona tanto, talvez, porque ela conte histórias que são, no fundo, humanas. É a equipe desacreditada que surpreende o mundo, o veterano que busca sua última chance, o jovem que assume responsabilidades precocemente, a seleção que tenta superar traumas do passado ou o país que sonha conquistar um título inédito. Todos esses enredos falam de temas universais: desejo, superação, perda, esperança e transformação. Para a Psicanálise, o futebol encanta justamente porque oferece uma narrativa simbólica da própria existência e em curto espaço de tempo. Em poucos dias, vemos condensados elementos que atravessam toda a vida humana: vitórias e derrotas, encontros e despedidas, glórias e fracassos.

"Em tempos de Copa do Mundo, os gramados se transformam em espelhos da condição humana. O que está em jogo não é apenas uma taça, mas emoções que atravessam fronteiras, idiomas e culturas. Por trás dos gols, das comemorações e das lágrimas existe algo que a Psicanálise conhece bem que é o desejo humano de pertencer, de sonhar e de encontrar sentido em experiências compartilhadas dos medos e das esperanças que nos tornam profundamente humanos", conclui a psicanalista.

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