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Lula põe ofensiva contra bets no centro da campanha e quer acabar com jogo do tigrinho

Por FolhaPress
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Lula põe ofensiva contra bets no centro da campanha e quer acabar com jogo do tigrinho

Foto: Ricardo Stuckert/PR

CAIO SPECHOTO, CATIA SEABRA, ADRIANA FERNANDES, IDIANA TOMAZELLI E JOÃO GABRIEL | BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou o combate às plataformas de apostas digitais, conhecidas como bets, no centro da sua campanha à reeleição e quer vetar os cassinos online, que ficaram famosos sob o apelido de "jogo do tigrinho". Auxiliares do chefe do governo veem uma medida contra essas empresas como iminente, salvo uma mudança inesperada na disposição do presidente.

Aliados do petista afirmam que ele está determinado a tomar uma atitude enérgica contra essas empresas, com restrição severa ou total a suas atividades. Mesmo no cenário menos restritivo, essas pessoas apostam em uma proibição do tigrinho. Elas dizem, porém, que a decisão só será sacramentada a partir de quarta-feira (23), após Lula voltar da Assembleia Geral da ONU.

A modalidade do tigrinho é responsável pela maior parte do faturamento das plataformas de apostas.

Esses jogos consistem em um cassino online, com jogos de azar digitais sem relação com eventos do mundo real -diferente das apostas em eventos esportivos, que dependem de resultados de partidas de futebol, por exemplo.

As apostas eletrônicas são apontadas por aliados de Lula como parte da explicação para os atuais níveis de endividamento da população. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, de acordo com estudo do Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda) com o Cicef (Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento).

Integrantes do governo que participam das discussões apontam obstáculos para a proibição total e mesmo para restrições a essas atividades econômicas. Por isso, ressalvam que ainda não é possível ter certeza sobre qual decisão será tomada.

Um dos pontos levantados é que as bets legalizadas pagaram uma taxa de R$ 30 milhões ao governo federal para funcionar por cinco anos, e a proibição agora abriria uma batalha judicial.

Haveria o risco, por exemplo, de o Executivo precisar indenizar as plataformas por elas não poderem exercer suas atividades durante todo o tempo contratado.

Há uma preocupação, na gestão petista, sobre como garantir que os serviços que forem proibidos fiquem realmente indisponíveis ao público em vez de apenas caírem na ilegalidade. Seria desmoralizante para o governo, na visão de pessoas ouvidas pela reportagem, se continuar sendo possível acessar as plataformas após uma possível proibição.

Além disso, essas empresas patrocinam uma série de influenciadores digitais, e há o temor de que eles se voltem contra Lula em plena campanha eleitoral caso as atividades sejam afetadas.

Mesmo na cúpula do governo há dúvidas sobre quais seriam os efeitos políticos de uma proibição ou restrição. As bets têm influência, por exemplo, no Congresso Nacional, por onde uma eventual medida provisória ou projeto de lei precisaria passar.

A oposição às bets deverá ser levada pela campanha de Lula à televisão nesta terça-feira (22). O programa deve ir ao ar na internet ainda nesta segunda-feira (21). A ideia do petista é se comprometer a lutar contra essa atividade econômica.

A reportagem apurou que a peça conterá uma conversa de Lula com pessoas que se endividaram por causa do vício em jogo. O histórico das bets no Brasil será apresentado como algo iniciado no governo de Michel Temer (MDB) e que passou pela gestão de Jair Bolsonaro (PL) sem regulamentação ou cobrança de impostos.

O governo Lula propôs a regulamentação do setor, por meio de projeto de lei aprovado no Congresso Nacional no fim de 2023. O mercado regulado, com permissão de atuação para 85 empresas mediante pagamento de uma outorga de R$ 30 milhões, começou em 2025, após um período de transição iniciado no segundo semestre de 2024.

A oposição às bets é popular junto ao eleitorado. Pesquisa Datafolha divulgada em maio deste ano mostrou que 57% dos brasileiros avaliam que as apostas on-line são um vício, e 31% acreditam que se trata de uma perda de dinheiro. O petista busca uma pauta que o ajude a conter o avanço de seu principal adversário nas eleições, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Aliados do presidente dizem que ele tem tocado no assunto com frequência em conversas reservadas, e que seus discursos públicos são semelhantes às ideias que expressa em privado. A oposição às bets teve destaque nos últimos dois comícios de Lula, em Guarulhos (SP) e Florianópolis.

Na cidade da grande São Paulo, na sexta (18), ele listou relatos de brasileiros endividados por causa de apostas. Também disse ter organizado uma vaquinha para pagar R$ 24 mil em dívidas de uma pessoa causadas por jogos online.

Lula afirmou ter encontrado essa mesma pessoa recentemente e conversado sobre o assunto. "Perguntei 'você está jogando?'. Ele começou a chorar e falou: 'estou devendo R$ 50 mil, presidente. Já gastei seus R$ 24 mil e estou devendo mais R$ 50 mil, eu vou me matar'". O petista em seguida afirmou que o vício em jogo é uma doença, e disse que acabará com as bets.

Além disso, a campanha do presidente tem distribuído nas redes sociais diversas peças de propaganda contra as bets. O grupo petista tenta responder, principalmente, à afirmação de clubes de futebol de que o esporte acabaria no Brasil se as atividades dessas empresas forem proibidas.

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