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Lecar devolve dinheiro a 90% dos clientes mas mantém promessa de fábrica

Marca nacional promete acordos e fábricas para entregar projetos

Por Marcos Camargo Jr.
Às

Lecar devolve dinheiro a 90% dos clientes mas mantém promessa de fábrica

A Lecar atravessa um novo capítulo de incertezas em seu projeto de criar uma fabricante nacional de automóveis. Em entrevista ao Jornal do Carro, do Estadão, o fundador Flávio Figueiredo Assis afirmou que a empresa já devolveu os valores pagos por aproximadamente 90% dos clientes que haviam realizado pré-reservas de seus veículos. Segundo o empresário, os projetos seguem ativos e a construção da fábrica prevista para o Espírito Santo permanece nos planos da companhia.

As reservas estavam ligadas principalmente ao Lecar 459, SUV híbrido-flex anunciado por R$ 159,3 mil e apresentado como um veículo desenvolvido no Brasil com elevado índice de nacionalização. 

Para garantir posição na fila de compra, os interessados precisavam desembolsar cerca de 1% do valor do automóvel. Em diferentes momentos, a empresa chegou a afirmar que havia acumulado milhares de pedidos para o modelo.

Na mesma entrevista, Flávio revelou que a Lecar negociava uma parceria estratégica com a chinesa Dongfeng Motor Corporation. O plano previa utilizar o compacto elétrico Box, conhecido na China como Nammi 01, que seria comercializado no Brasil sob a denominação Lecar Pop. As conversas, porém, não evoluíram para um acordo definitivo. 

A revelação chama atenção porque, durante o Salão de Pequim de 2026, executivos da própria Dongfeng afirmaram que a fabricante já conduzia estudos para estabelecer uma operação independente no mercado brasileiro, sem mencionar qualquer associação com a Lecar. O movimento fazia parte da nova ofensiva das montadoras chinesas em direção à América Latina e incluía planos próprios de expansão comercial no país. 

A trajetória da Lecar ganhou projeção nacional nos últimos anos ao prometer o desenvolvimento do primeiro híbrido-flex concebido por uma empresa brasileira desde o encerramento de projetos semelhantes de outras iniciativas independentes. O anúncio da futura fábrica em Sooretama, no Espírito Santo, e a participação em eventos como o Salão do Automóvel ajudaram a ampliar a visibilidade da marca e atraíram consumidores interessados em uma alternativa nacional no segmento de eletrificação. 

Ao mesmo tempo, os protótipos apresentados pela empresa passaram a ser alvo frequente de questionamentos. Especialistas, influenciadores e jornalistas apontaram divergências entre as especificações anunciadas e o estágio efetivo de desenvolvimento dos veículos. Houve críticas sobre a abertura de reservas antes da existência de modelos funcionais definitivos, além de debates envolvendo a origem de componentes e a viabilidade industrial do projeto. 

Os embates migraram para as redes sociais, onde o fundador da empresa respondeu publicamente a críticas e confrontou influenciadores do setor automotivo. As discussões ajudaram a manter a Lecar em evidência, mas também ampliaram o ceticismo de parte do mercado em relação ao cronograma de produção e à capacidade de execução dos planos anunciados.

Apesar da devolução dos recursos das pré-reservas e do fracasso nas negociações com a Dongfeng, a empresa sustenta que pretende iniciar a operação industrial nos próximos anos. O futuro da iniciativa, entretanto, dependerá da obtenção de parceiros tecnológicos, financiamento e da transformação dos protótipos apresentados em produtos efetivamente aptos a chegar às ruas brasileiras.

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