Estudo aponta que álcool na adolescência pode aumentar comportamento de risco na vida adulta
Pesquisa da Unifesp com camundongos identificou alterações na tomada de decisões após exposição excessiva à substância durante o desenvolvimento cerebral

Foto: Dmytro Betsenko/Moment RF/Getty Images
Segundo um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode provocar alterações comportamentais que permanecem na vida adulta.
A pesquisa foi desenvolvida na Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e resultou em dois artigos publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.
O estudo foi realizado com camundongos. Nos experimentos, animais expostos a altas doses de álcool enquanto o cérebro ainda estava em desenvolvimento demonstraram maior propensão a decisões arriscadas quando adultos. Em parte dos casos, também foi observado aumento do consumo da substância posteriormente.
Durante o estudo, os pesquisadores administraram quatro doses de álcool aos animais ao longo da adolescência para simular episódios de binge drinking, termo usado para definir o consumo de grande quantidade de bebida alcoólica em um curto intervalo de tempo.
De acordo com a coordenadora do estudo, Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, considerando as diferenças de expectativa de vida entre camundongos e humanos, o protocolo seria equivalente a aproximadamente dois episódios de intoxicação por mês durante a adolescência.
Os efeitos identificados dependeram do sexo dos animais e do período em que ocorreu a exposição. Entre os machos que receberam álcool no início da adolescência, houve maior tendência a comportamentos de risco na fase adulta. Nas fêmeas expostas no mesmo período, esse efeito não foi identificado, mas houve aumento do consumo de álcool posteriormente.
Já quando a exposição ocorreu no fim da adolescência, alterações relacionadas à avaliação de riscos foram registradas tanto nos machos quanto nas fêmeas.
Segundo os pesquisadores, a maior vulnerabilidade nessa fase está relacionada ao fato de o cérebro ainda estar em processo de amadurecimento. O córtex pré-frontal, associado à tomada de decisões e ao controle de impulsos, está entre as regiões que se desenvolvem mais tardiamente. Em humanos, esse processo pode continuar até aproximadamente os 25 anos.
A equipe também avaliou se as diferenças entre machos e fêmeas poderiam estar relacionadas aos diferentes ritmos de maturação cerebral. Os resultados, no entanto, indicam que outros fatores podem estar envolvidos, já que a exposição mais tardia provocou alterações nos dois sexos.
No Brasil, é proibida a venda ou o fornecimento de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. Os artigos estão disponíveis em:
Alcohol or stress exposure during late adolescence impairs risk assessment later in life, disrupting the ethological structure of behavior in mice: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/acer.70328.
Repeated early-adolescent ethanol intoxication promotes riskier decision-making in adult male mice and increases drinking in adult female mice: sciencedirect.com/science/article/pii/S0031938426000612.


