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Enem tem recorde de inscritos concluintes do ensino médio com desafio de garantir participação

O desafio, no entanto, é garantir que esses estudantes de fato compareçam à prova

Por FolhaPress
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Enem tem recorde de inscritos concluintes do ensino médio com desafio de garantir participação

Foto: Reprodução

ISABELA PALHARES

 Mais de 2,3 milhões de alunos do último ano do ensino médio estão inscritos para fazer o Enem 2026, que começa neste domingo (8). É a maior participação de concluintes desde 2009, quando o exame passou a ter seu formato atual. O desafio, no entanto, é garantir que esses estudantes de fato compareçam à prova.

O crescimento foi impulsionado após o Ministério da Educação adotar a inscrição automática dos estudantes concluintes do ensino médio da rede pública e fazer a ampliação de 10 mil novos locais de aplicação de prova.

Com as mudanças, quase metade (47%) dos mais de 5,05 milhões de inscritos estão no 3º ano dessa etapa. Até então, a participação mais alta desses estudantes havia ocorrido em 2025 e 2022, quando eles representaram 38% do total. Além disso, a grande maioria desses concluintes (87,3%) estuda em escolas públicas.

O objetivo do MEC com a inscrição automática é incluir o Enem no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), como uma das formas de avaliar a qualidade da educação nas redes de ensino do país.

Assim, o Enem passa a ter uma segunda função para além da seleção ao ensino superior: avaliar o aprendizado dos alunos ao fim do ensino médio.

Como o Saeb é aplicado a cada dois anos, a ideia é que com o uso do Enem, realizado anualmente, o país possa ter diagnósticos mais frequentes da qualidade do ensino. Além disso, se espera maior engajamento dos alunos para fazer a avaliação —uma vez que não há nenhuma gratificação ou benefício direto para quem faz o Saeb.

Para especialistas, a possibilidade de que mais alunos façam o Enem é sempre positiva, uma vez que o exame é visto como uma espécie de termômetro da esperança dos jovens brasileiros.

No entanto, avaliam que apenas a inscrição automática não garante o engajamento e comparecimento, sobretudo, dos que estudaram em escola pública.

Também dizem que uma baixa participação no Enem pode levar ao desperdício de recursos públicos.

O MEC não divulga informações sobre o custo da abstenção, mas no Enem 2020, realizado durante a pandemia, quando a taxa atingiu nível recorde (com 51,5% dos inscritos não comparecendo à prova) o governo Jair Bolsonaro (PL) estimou um desperdício de R$ 332,5 milhões, um custo de cerca de R$ 117 por candidato.

"O jovem prestar o Enem é sempre um bom sinal, significa que ele acredita em seu potencial e tem vontade de continuar estudando, de entrar em uma universidade. A inscrição automática pode ser um facilitador, mas não é um mecanismo que sozinho irá garantir mais engajamento", diz Maria Inês Fini, criadora da primeira versão do Enem.

Para ela, uma forma de garantir a participação do estudante no exame seria articular uma ação do MEC com as secretarias estaduais de Educação (responsáveis por mais de 82% das matrículas de ensino médio no país) para criar algum tipo de incentivo à realização da prova. "Poderia se pensar em, por exemplo, vincular a participação a algum bônus no boletim escolar dos alunos."

Para Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a estratégia de inscrição automática é um avanço importante. "Ao retirar a barreira 'burocrática' da inscrição, o Estado assumiu a responsabilidade de mobilizar o estudante, em vez de esperar que ele, sozinho, superasse obstáculos como falta de informação, dificuldades de acesso ou com o sistema."

Ela diz ainda que a ampliação dos locais de prova elimina barreiras logísticas históricas, com a inclusão de muitos novos municípios.

Pellanda afima que a média da taxa de abstenção do exame tem se mantido alta nos últimos anos, em torno de 25%. Por isso, uma possível elevação desse índice não representaria necessariamente um fracasso da inscrição automática.

"O ponto-chave é que a estratégia aumenta o universo de inscritos. Se a taxa percentual de abstenção se mantiver estável, o número absoluto de estudantes presentes tende a ser maior.

Uma possível alta da abstenção não invalida a inscrição automática. Ela escancara que a inscrição é apenas o primeiro passo. A abstenção é um termômetro de desigualdades que permanecem em nosso sistema educacional", diz.

Como é a primeira vez que o Enem será incorporado ao Saeb, o exame deste ano servirá como um teste experimental para a avaliação, antes de se tornar obrigatório no próximo ano. Por isso, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirmou ter confiança de que será possível alcançar uma taxa de participação de 70% dos concluintes inscritos.

No ano passado, a média de participação dos concluintes de escola pública foi de 55%. Para que o exame possa avaliar com precisão a qualidade das redes de ensino do país, é necessário que a participação atinja ao menos 80%.

"Nos últimos anos, o MEC conseguiu conscientizar as secretarias estaduais de Educação sobre a importância de ações para estimular os alunos a fazerem o Enem. São Paulo, Ceará, Goiás e vários outros estados estão adotando providências, por exemplo, para garantir o deslocamento gratuito dos estudantes até os locais de prova", diz Maria Helena Guimarães de Castro, especialista em avaliação de políticas públicas e que foi secretária-executiva do ministério no governo de Michel Temer (MDB).

Neste ano, pela primeira vez, os estudantes da rede estadual de São Paulo terão transporte gratuito nos dias do Enem para se deslocarem aos locais de prova. Segundo o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), a iniciativa deve atender cerca de 70 mil alunos em 500 municípios —onde as prefeituras não haviam previsto a gratuidade do transporte coletivo nos dias do exame.

Com essas ações, o governo Tarcísio pretende ampliar a presença dos estudantes no exame. Em 2023, a rede estadual de São Paulo teve a segunda menor participação de alunos da rede pública, com 34% comparecendo à prova —a menor taxa foi em Roraima, com 29%.

Outra iniciativa do MEC para ampliar a participação dos estudantes de escola pública é o pagamento de um incentivo adicional de R$ 200 do programa Pé de Meia para os concluintes que comparecerem aos dois dias de aplicação do Enem.

"A iniciativa reforça o compromisso do governo federal com a permanência escolar, a conclusão da educação básica e o estímulo à participação no exame", disse em nota o Inep, órgão responsável pelo Enem.

O instituto disse ainda que o Enem é uma política de Estado consolidada, que será reforçada ao ser integrada ao Saeb. "Essa ampliação reforça a importância do exame como instrumento de avaliação da educação brasileira, capaz de produzir informações relevantes para o diagnóstico da aprendizagem e o aprimoramento das políticas públicas educacionais."

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