Brasil pode ultrapassar EUA no mercado agrícola; veja números que colocam país na vice-liderança mundial
Exportações recordes, avanço da produção de grãos e ampliação do crédito rural reforçam a posição brasileira no mercado agrícola mundial

Foto: IMAGEM DE ARQUIVO/AGÊNCIA BRASIL
O Brasil ampliou presença no mercado agrícola internacional e reúne condições para disputar com os Estados Unidos a liderança entre as maiores potências do agronegócio mundial. Com exportações recordes, produção crescente de grãos e protagonismo em commodities como soja, café, açúcar e carnes, o país fortalece sua posição no comércio global de alimentos.
A expansão ocorre em meio à abertura de novos mercados e ao aumento da demanda internacional por produtos brasileiros. Ao mesmo tempo, o crescimento da produção e os investimentos em financiamento rural ajudam a explicar o avanço do setor. Apesar dos resultados, alcançar a liderança mundial em todos os indicadores agrícolas ainda depende de fatores econômicos, produtivos e ambientais.
Brasil se aproxima dos EUA no mercado agrícola
A possibilidade de o Brasil superar os Estados Unidos em diferentes indicadores do agronegócio ganhou destaque em análises publicadas pela imprensa internacional. Em entrevista ao UOL, Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura, avaliou que os dois países já apresentam um cenário de equilíbrio em determinadas áreas.
O Brasil ocupa posições de destaque na produção e exportação de soja, café, algodão, suco de laranja e carnes. Essa presença amplia a capacidade do país de abastecer mercados internacionais e disputar espaço com produtores tradicionais.
Outro fator que influenciou a estratégia comercial brasileira foi o tarifaço imposto pelo presidente norte-americano Donald Trump. As barreiras comerciais reforçaram a busca por novos destinos para os produtos nacionais, com destaque para a China, que se consolidou como o principal mercado do agronegócio brasileiro.
Em 2025, o país asiático comprou US$ 55,3 bilhões em produtos do setor, o equivalente a 32,7% das exportações brasileiras do agronegócio, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Na sequência, apareceram a União Europeia, com US$ 25,2 bilhões, e os Estados Unidos, com US$ 11,4 bilhões.
Exportações do agronegócio atingem recorde
O desempenho comercial reforça a importância do setor para a economia brasileira. Em 2025, as exportações do agronegócio alcançaram US$ 169,2 bilhões, um recorde e um crescimento de 3% em relação ao ano anterior, conforme dados do Mapa.
O segmento respondeu por 48,5% de todas as vendas externas do país. Já o superávit comercial do agronegócio chegou a US$ 149,07 bilhões, resultado da diferença entre as exportações e as importações do setor.
Entre os principais produtos, a soja em grãos permaneceu na liderança, com US$ 43,5 bilhões em receitas e embarques de 108,2 milhões de toneladas.
A carne bovina também registrou um resultado recorde, com US$ 17,9 bilhões em exportações. Os números demonstram a capacidade brasileira de manter grandes volumes de produção e atender à demanda de compradores internacionais.
O avanço, porém, traz desafios. A expansão da fronteira agrícola está associada a pressões sobre biomas, terras indígenas e áreas protegidas, além de registros de trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão.
Por isso, ampliar a produção sem aumentar o desmatamento, recuperar pastagens degradadas e elevar o rendimento por hectare estão entre os desafios para conciliar crescimento econômico e sustentabilidade.
Governo Lula amplia recursos para o crédito rural
A política de financiamento agrícola também integra o cenário de expansão do setor. Desde 2023, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou os valores anunciados nos Planos Safra, que oferecem recursos para custeio, comercialização e investimentos na produção rural.
Na agricultura empresarial, os valores anunciados passaram de R$ 340,88 bilhões no Plano Safra 2022/2023, durante o governo Jair Bolsonaro, para R$ 364,22 bilhões em 2023/2024 e R$ 400,59 bilhões em 2024/2025.
Na temporada 2025/2026, o volume anunciado chegou a R$ 516,2 bilhões, segundo os dados oficiais citados no material. A comparação representa um aumento nominal expressivo em relação ao período anterior à mudança de governo.
O montante, no entanto, corresponde à disponibilidade de financiamento anunciada, e não necessariamente aos valores efetivamente contratados ou desembolsados. A composição das fontes de recursos também varia entre as edições, o que exige cautela na comparação.
No Plano Safra 2025/2026, foram previstos R$ 415 bilhões para operações de custeio e comercialização e R$ 102 bilhões para investimentos produtivos.
Entre as áreas contempladas estão a modernização tecnológica, a ampliação da capacidade de armazenagem, a irrigação e a recuperação de áreas degradadas.
A agricultura familiar conta com linhas próprias de financiamento por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), separado do plano destinado à agricultura empresarial.
O aumento da oferta de crédito pode facilitar a compra de máquinas, insumos e equipamentos, além de ampliar a capacidade de investimento dos produtores. Os efeitos sobre a produção, contudo, dependem das taxas de juros, do acesso aos recursos e da capacidade de transformar o financiamento em ganhos de produtividade.
Safra de grãos reforça o avanço brasileiro
A expansão da produção é outro fator que sustenta as perspectivas do agronegócio nacional. Em levantamento divulgado em setembro de 2026, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou a produção brasileira de grãos em 361,7 milhões de toneladas na safra 2025/2026, um crescimento de 2,6% em relação ao ciclo anterior.
A área plantada foi estimada em 83,5 milhões de hectares. A soja deve alcançar 180,4 milhões de toneladas, enquanto a produção de milho está projetada em 144 milhões de toneladas.
Os volumes ampliam a oferta de matérias-primas para a indústria de alimentos, a fabricação de rações e a produção de biocombustíveis.
Para a safra 2026/2027, as perspectivas divulgadas pela Conab em setembro apontam para uma produção de até 366,6 milhões de toneladas de grãos. A estimativa considera o aumento da área cultivada e o desempenho esperado das principais lavouras, mas permanece sujeita às condições climáticas e à evolução do plantio.
Tecnologia e pesquisa impulsionam a produtividade
O crescimento da agricultura brasileira também está ligado aos investimentos em pesquisa, mecanização e inovação tecnológica realizados ao longo das últimas décadas.
O desenvolvimento de variedades adaptadas às condições tropicais, a agricultura de precisão e a integração entre lavoura e pecuária contribuíram para elevar a produtividade em diferentes regiões do país.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) teve papel importante nesse processo, especialmente na criação de cultivares adaptadas a solos e condições climáticas que anteriormente limitavam a produção em áreas do interior brasileiro.
Esses avanços favoreceram a expansão agrícola no Centro-Oeste e no Matopiba, região que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) também reconhece a transformação da agricultura brasileira, que passou de exportadora de um conjunto mais restrito de produtos tropicais a fornecedora global de soja, milho, algodão, açúcar, carnes e etanol.
A pesquisa agropecuária e os investimentos públicos e privados em tecnologia aparecem, nesse contexto, entre os fatores que contribuíram para ampliar a competitividade brasileira.
OCDE e FAO projetam mudanças no comércio agrícola
As perspectivas de crescimento também aparecem nas projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
No relatório Agricultural Outlook 2026-2035, os organismos destacam a importância do comércio internacional para o abastecimento mundial e a influência de países como Brasil, Argentina e Paraguai na oferta agrícola global.
As projeções apontam os ganhos de produtividade como um dos principais motores da expansão da produção ao longo da próxima década.
Apesar do potencial brasileiro, a disputa pela liderança mundial não depende apenas do volume produzido ou exportado. A competitividade também envolve tecnologia, acesso a mercados, custos de produção, condições de financiamento e capacidade de ampliar a oferta sem comprometer a proteção ambiental e os direitos dos trabalhadores.


